Espelho Cultural reflete 5º Fest Fêgo de Teatro

A Escola de Artes “Maestro Fêgo Camargo”, de Taubaté, realizará a partir da próxima segunda-feira, 12 de novembro, o 5º Fest Fêgo – Festival de Teatro.

O festival é organizado pelos alunos formandos do 3º ano Técnico de Teatro e tem a finalidade de mostrar os trabalhos cênicos das turmas dos cursos Básico e Técnico, produzidas durante o ano de 2018.

Foto: Os atores Yago Pinheiro e Karoline Magalhães, dois dos organizadores do 5º Fest Fego (Wladimir Pereira/Arquivo Pessoal)

Os atores Yago Pinheiro e Karoline Magalhães, dois dos organizadores do festival, concederam uma entrevista exclusiva ao Espelho Cultural, falando sobre o festival, sua programação e sobre o ingresso que, diferentemente dos anos anteriores, será “solidário” (cada pacote de bolacha valerá um ingresso). E toda a arrecadação será doada ao Fussta (Fundo Social de Solidariedade de Taubaté).

Confira a programação completa do 5º Fest Fêgo e garanta seu ingresso chegando sempre ao local uma hora antes do início do espetáculo.

Foto: No dia 13 será apresentada a peça Rinoceronte, dos alunos do Técnico 2 de Teatro (Wladimir Pereira/Arquivo Pessoal)

Foto: No dia 14 será apresentado O Berço do Herói (Roque Santeiro), dos alunos do Técnico 3 de Teatro (Wladimir Pereira/Arquivo Pessoal)

VÁ AO TEATRO!

Prestigie o artista da sua cidade!

EVOÉ!

Espelho Cultural reflete Museu Nacional

Este é um artigo muito triste de escrever, mas não há como não refletir sobre um assunto tão importante para a memória histórica e cultural do nosso país.

Neste domingo, 2 de setembro, perto das 19 horas, após o término do horário de visitação, o Museu Nacional do Rio de Janeiro entrou em chamas.

O Museu Nacional é um dos maiores museus de história brasileira e de antropologia das Américas, e a mais antiga instituição científica do país. Localizado no Parque da Quinta da Boa Vista e instalado no Palácio de São Cristóvão, foi fundado em 6 de junho de 1818 por Dom João VI, e acabara de completar 200 anos de história.

A instituição tinha um acervo com mais de 20 milhões de itens, que englobava ciências naturais e antropológicas, bibliotecas com quase 500 mil livros de História Natural e Ciências Humanas do Brasil, inúmeras obras raras de povos e civilizações antigas, e também abrigava o mais antigo fóssil humano descoberto no país, que foi batizado de Luzia.

O Museu Nacional, em sua fundação, era sediado no prédio Casa dos Pássaros, no Campo de Santana, centro do Rio de Janeiro – prédio este que foi ocupado pelo Arquivo Nacional anos depois. Só em 1892, com o Palácio São Cristóvão desocupado, é que o Museu, já com 74 anos, foi transferido com todo o seu acervo para o Parque da Quinta da Boa Vista, onde é sediado até os dias de hoje.

Foto: Reuters/Ricardo Moraes

Até o momento, ainda não se sabe a causa do incêndio que se alastrou pelos três andares do prédio. Felizmente, não há registro de vítimas. Há uma preocupação pelos diretores e administradores do museu de que as chamas atinjam a área de componentes químicos (altamente inflamáveis) que são usados na conservação de animais raros.

O diretor de Preservação do Museu Nacional, João Carlos Nara, relatou que estava aguardando as eleições para dar início às obras de preservação da infraestrutura do prédio. Já o diretor-adjunto, Luiz Fernando Dias Duarte, disse que vários governos trataram o museu com descaso. Há anos tentavam verba para uma reestruturação. E desabafou, que nenhuma autoridade convidada — presidente, ministros e secretários — esteve presente na cerimônia de 200 anos.

Conforme informações dadas pelos meios de comunicação, o incêndio destruiu todo o Museu Nacional, atingindo acervos históricos e científicos, a maioria deles da época do império. Dos acervos destruídos deram destaque à coleção da Imperatriz Teresa Cristina; afrescos de Pompeia; o trono do Rei de Maomé; e os acervos linguísticos.

São 200 anos de história do Brasil que viraram cinzas. Não há como repor, reaver ou reconstruir o que foi queimado. Um dia de luto histórico/cultural.

Espelho Cultural reflete 16ª Mostra de Teatro de Taubaté

Começou nesta sexta, 20 de julho, a 16ª Mostra de Teatro de Taubaté. No início do ano, o primeiro assunto refletido pelo Espelho Cultural foi exatamente sobre a Mostra de Teatro de Taubaté. Reflexão sobre os últimos anos e como houve uma grande diminuição de peças, grupos, atores e técnicos envolvidos nesse evento. Para minha surpresa e felicidade, na edição desse ano o número de peças que serão mostradas aumentou para 14 (ano passado foram apenas sete).

Cena da peça “O Mundo do Faz de Conta”

E esse aumento de participação se deve muito aos alunos de Artes Cênicas da Escola de Artes “Maestro Fêgo Camargo” (sob as orientações de Jefferson Machado, Denilson Campos e Natasha Curuci), que, com muita vontade de fazer teatro, se empenharam nesse primeiro semestre e produziram trabalhos para fazer parte desse evento tão importante para a nossa cultura e cidade. Acompanho essa nova geração de atores e posso dizer que há muito tempo não se via uma turminha tão comprometida como essa. Evoé!

Cena da peça “O Carteiro e Cotovia – Grupo Fabricando Arte”, que será apresentada dia 28, às 10h, na Praça Dom Epaminondas

Gostaria muito de evidenciar aqui alguns grupos que há anos participam da mostra e nunca desistiram dela, como o Grupo Fabricando Arte, a Cia. Quase Cinema (Teatro de sombras), a Cia. Arte Fatos e a Cia. Balakkobacco. Tiago Giles, Catia Bercano, Ana Paula Ribeiro, Ronaldo Robles, Silvia Godoy, Fábio Teberga, Aldy Coelho e Alexandre Fortes são pioneiros dessa arte e muito me honra saber que ainda fazem parte dessa história, e que continuam produzindo.

Jamais poderei deixar de comentar aqui sobre as participações do Sítio do Picapau Amarelo e do Parque Itaim, que praticamente estiveram presentes em todas as edições da mostra. Tina Lopes, responsável pelo Sítio, com a coordenação teatral de Renata Baptista, e Amanda Birbeire, coordenadora teatral do Itaim, estão sempre produzindo trabalhos que diariamente são apresentados às crianças e aos adultos que visitam os distintos lugares. E é durante a mostra que essas produções podem ser vistas e apreciadas por muitas pessoas que, por um motivo ou outro, não tiveram a oportunidade ou tempo para assistir no Sítio ou no Itaim, e que nesse mês podem conhecer os trabalhos realizados sobre a obra de Lobato.

Cena da peça “Ponto Gatilho”, da Cia. Aprendendo a Ensinar

Enfim, a Mostra de Teatro de Taubaté está aí, na sua 16ª edição e com entrada franca. Lembrando que aos sábados e domingos também haverá apresentações na Praça Dom Epaminondas de manhã. Abaixo a programação completa do evento.

Dia 20 (6ª feira)

O MUNDO DO FAZ DE CONTA (Sítio do Picapau Amarelo)

20 horas – Local: Teatro Metrópole

Direção: Renata Baptista

Recomendação etária: Livre

Dia 21 (Sábado)

OVOLUÇÃO – A HISTÓRIA DE UM PINTINHO (Cia Balakkobacco)

10 horas – Local: Praça Dom Epaminondas

Direção: Alexandre Fortes

Com Julianus Nunes e Alexandre Fortes

COMÉDIA DE CASAL (Cia. Arte e Fatos Produções)

20 horas – Local: Teatro Metrópole

Direção: Fábio Teberga

Com Aldy Coelho e Fábio Teberga

Recomendação etária: 14 anos

Dia 22 (Domingo)

O MITO DE SÍSIFO (Cia. Contramão)

10 horas – Local: Praça Dom Epaminondas

Direção: Bruno Soares Silva

A CONSPIRAÇÃO (Cia. Amarras de Teatro)

20 horas – Local: Teatro Metrópole

Direção: Jefferson Machado

Recomendação etária: 08 anos

Dia 23 (2ª feira)

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA (Cia. As Meninas)

20h30 – Local: Teatro Metrópole

Direção: João Paulo Santos

Com João Paulo Santos e Cauê Oliveira

Recomendação etária: 14 anos

ATENÇÃO: Sessão limitada para apenas 80 lugares

Dia 24 (3ª feira)

CRU VERSACE (Cia. Teatro Laboratório Fêgo Camargo)

20h30 – Local: Teatro Metrópole

Direção: Jefferson Machado

Com Cauê Araújo, Lucas Furtado e Letícia Delgado

Recomendação etária: 18 anos

ATENÇÃO: Sessão limitada para apenas 100 lugares

Dia 25 (4ª feira)

SONHEI COM AS SOMBRAS DA VIDA (Cia. Quase Cinema)

20 horas – Local: Teatro Metrópole

Direção: Ronaldo Robles

Com Ronaldo Robles e Silvia Godoy

Recomendação etária: Livre

ATENÇÃO: Sessão limitada para apenas 80 lugares

Dia 26 (5ª feira)

PONTO GATILHO (Cia. Aprendendo a Ensinar)

20h30 – Local: Teatro Metrópole

Direção: Rafael Soares

Com Rafael Soares e Antônio Antunes

Recomendação etária: 16 anos

ATENÇÃO: Sessão limitada para apenas 80 lugares

Dia 27 (6ª feira)

HOSPÍCIO 3.0 – Teatro itinerante (Cia. Filha da Mãe)

19 horas – Local: Teatro Metrópole

Direção: André Rodrigues

Recomendação etária: 16 anos

Dia 28 (Sábado)

O CARTEIRO E A COTOVIA (Grupo Fabricando Arte)

10 horas – Local: Praça Dom Epaminondas

Direção: Tiago Giles

Com Catia Bercano e Tiago Giles

BEM ESTÁ O QUE BEM TERMINA (Grupo Los Pikaretas)

20 horas – Local: Teatro Metrópole

Direção: Gilson Silva

Recomendação etária: 16 anos

Dia 29 (Domingo)

HISTÓRIAS PARA PIÁS DE PEQUENO PORTE (Grupo Caras de Totem)

10 horas – Local: Praça Dom Epaminondas

Direção: Charles Kray

Com Charles Kray e Wallace Puosso

O RECASAMENTO DE EMÍLIA (Parque do Itaim)

16 horas – Local: Teatro Metrópole

Direção: Amanda Birbeire

Recomendação etária: Livre

Todas as apresentações serão gratuitas e os ingressos serão distribuídos na bilheteria do Teatro Metrópole uma hora antes da sessão de cada dia. As apresentações do Teatro de Rua, na Praça Dom Epaminondas, têm recomendação etária livre e não precisarão de ingressos.

O Teatro Metrópole fica à Rua Duque de Caxias, 312, no Centro de Taubaté, e tem capacidade para 565 lugares. Mais informações (12) 3624-8695. Mas prestem bastante atenção que alguns espetáculos são limitados de público. Por isso, recomenda-se que chegue mais cedo para conseguir o ingresso e assistir a peça.

VÁ AO TEATRO!

PRESTIGIE O ARTISTA DA SUA CIDADE!

EVOÉ!

Espelho Cultural reflete assédio em fotografia

No mês passado, um assunto muito sério e de grande repúdio abalou a classe dos fotógrafos. O renomado fotógrafo Juliano Coelho foi acusado de assédios e de estuprar uma modelo durante uma sessão fotográfica. Juliano é casado, pai de duas meninas e é especializado em ensaios sensuais e nus femininos.

A denúncia foi publicada na revista Cláudia, no dia 25 de junho, e imediatamente repercutiu nas redes sociais, assustando toda a classe de fotógrafos e agências de modelos. A matéria diz que o acusado aproveitava de sua fama e trabalho para despir e tocar suas clientes, sem o consentimento delas. Nos relatos, muitas disseram que ele nitidamente fotografava excitado e tranquilizava suas clientes como sendo uma reação normal, já que elas eram belíssimas e estariam em poses sensuais. Outros relatos contam que, em seus cursos de fotografia, Juliano estimulava os alunos do sexo masculino a ficarem excitados ao fotografar e persuadirem as modelos a tirar a roupa. E o relato mais grave e repugnante foi de uma modelo que foi estuprada por ele durante um ensaio em um hotel.

Juliano é o criador do método “retratoterapia”, aplicado em seus trabalhos e cursos, que era uma sessão exclusiva para que a modelo tivesse a chance de se conectar com sua vida, sua beleza e natureza por meio de fotografias. Nessas sessões, o fotógrafo proibia as clientes de levar alguém para acompanhar o ensaio, porque o método consistia na experiência única entre o fotógrafo e a retratada.

No mesmo dia da publicação da revista, ele deixou um pronunciamento em seu site que estaria largando o ofício de fotografar, para proteger sua família.

Muitos fotógrafos e fotógrafas de renomes e tantos outros ainda não famosos deram seus depoimentos nas redes sociais, se solidarizando às vítimas e enojados, mas ao mesmo tempo surpresos, com o alto crime do acusado, profissional de renome, que era respeitado pela classe, que com seus atos hediondos faz com que a profissão fotógrafo seja alvo de desconfianças e receios perante seus clientes.

Interessante que antes mesmo dessa denúncia acontecer, umas duas semanas atrás, estava com amigos discutindo exatamente sobre como realizo sessões de nu artístico. Para quem não sabe, também sou fotógrafo, e há 18 anos trabalho com nu em meus ensaios. Em 2000, fui contratado pela revista eletrônica de entretenimento MixBrasil, hoje um dos maiores festivais de cinema do país, para fotografar modelos nus. O site me deixava livre para contratar os retratados. Muitos eram de São Paulo e outros de Taubaté e cidades vizinhas. Havia cachê e contrato. Tinha um amigo que entrava em contato com os modelos de São Paulo e outro amigo que fazia o mesmo aqui na região. Durante as sessões esses amigos eram meus assistentes (ajudavam com rebatedores, iluminação e produção). Também contava com um maquiador (contratado por mim ou trazido pelo modelo). Antes de qualquer sessão sempre foi primordial uma entrevista com o retratado. “Confiança” é a palavra mais importante e que faço questão que as pessoas retratadas tenham durante o ensaio fotográfico. Por mais que estejamos no século 21, a nudez ainda é um tabu. E sei que não é fácil ficar nu perante uma lente e uma pessoa que você acabou de conhecer. Por isso que converso muito com a pessoa antes da sessão e, durante essa conversa, há uma troca de informações entre mim e o modelo, sobre a vida, sonhos e limites de cada um.

Foto: Modelo Guilherme Martins, com roupão, refazendo maquiagem durante sessão de nu artístico com o fotógrafo Wladimir Pereira

Com essa experiência, muitas pessoas vieram me procurar para serem retratadas nuas. E o que era mais interessante, me procuravam porque tinham a vontade de fazer nu artístico por questões pessoais, para se sentirem melhor. E era nítido, nesse primeiro contato, como elas confiavam em mim e de como era grande a minha responsabilidade, uma vez que estava em minhas mãos, ou melhor, em meu olhar, solucionar essas questões e fazer com que a autoestima delas se elevasse de vez. E esse desafio sempre foi cumprido.

Nesses 18 anos, retratei homens e mulheres das mais diversas belezas, idades e profissões. Fiz ensaios incríveis com garotos e garotas de programa, travestis, e qual minha surpresa em conhecer esse universo que até então me era desconhecido e de como aprendi a respeitá-los. Em nenhum desses ensaios houve qualquer tipo de insinuação sexual de ambas as partes, tirando é claro, as posições que insinuavam sensualidade, dirigidas por mim ou sugeridas pelos próprios fotografados.

Como cada sessão dura em média de duas a três horas, sempre levei um roupão para o modelo vestir nos intervalos de mudança de produção. Muitas vezes, depois de uma horinha de cliques, o modelo se sentia tão confortável, seguro e confiante com meu profissionalismo, que ele próprio não vestia mais o roupão. Já fiz ensaios que não tive nenhum assistente e o modelo veio sozinho. E o procedimento era o mesmo: entrevista, proposta do ensaio, roupão e muito respeito. Até no momento que eu tinha que tirar um cabelo indesejado da testa do modelo, o “com licença” era natural. E é assim que tem que ser. O ensaio tem que ser leve, divertido, descontraído e ser um momento inesquecível para quem é retratado. Por isso zelo muito pelo meu ofício. Fotografar, para mim, é um momento mágico, incrível. Muito do que sou hoje, devo à fotografia e aos que fotografei.

Foto: Ensaio sensual com o modelo Klauss Fourtoun (Arquivo pessoal/Wladimir Pereira)

Fico indignado, enojado, quando vejo profissionais dessa área aproveitando seu ofício para realizar desejos obscuros. Ser fotógrafo não é fácil. Ser fotógrafo exige investimento (os equipamentos são caríssimos), exige estudar muito, exige competência e muita criatividade. Somos responsáveis por realizar sonhos, aumentar autoestima e eternizar momentos marcantes da vida de muitas pessoas. E esses momentos jamais devem ser por causa de assédios, abuso sexual, desrespeito ou traumas que causarão danos psicológicos para o resto da vida.

Fica aqui o meu alerta. Tome cuidado com pessoas que se disfarçam de fotógrafos para satisfazer desejos pessoais e denigrem toda uma classe de profissionais competentes, honrados e sérios.

Espelho Cultural reflete o cinema nacional

Quem me conhece sabe da minha paixão pelo cinema nacional. Lembro que, quando menino, quando Mazzaropi lançava um filme eu já ficava ansioso porque sabia que meu pai, fã deste gênio brasileiro, levaria a gente ao cinema para assistir a nova produção. Acho que “O Jeca e a égua milagrosa”, produzido em 1980, foi o último que vi no cinema.

Último filme que assisti de Mazzaropi no cinema

Mas ir ao cinema não era tão comum assim para mim. Meu pai só levava para ver Mazzaropi, e eu adorava. Para assistir outras produções, dependia se sobrasse dinheiro. Então a solução era esperar algum canal de televisão anunciar a exibição dos filmes para poder ver. Vale lembrar aqui que nos anos 80 ainda não existiam locadoras e muito menos se imaginava a internet. Eu só fui ter um videocassete em 1990 e, nas poucas locadoras da minha cidade, os filmes nacionais eram muito escassos.

Me recordo ainda quando assisti pela primeira vez “Independência ou Morte”, de Carlos Coimbra, com Tarcísio Meira como D. Pedro I. Eu devia de ter uns seis anos na época. O filme foi lançado em 1972 e no ano seguinte passou na TV. Fiquei alucinado com o filme. Todas as vezes que reprisava, eu assistia. Comento sobre esse filme, porque ele é o responsável por essa minha paixão pelo nosso cinema. Mas, nessa época, infelizmente a produção nacional pouco era exibida nos canais de televisão. Até porque nos anos 70 e 80 a maioria dos filmes brasileiros eram recheados de nudez, sexo, palavrões e violência gratuita. Se eu ficava curioso para ver esses filmes? Nossa, ficava louco. Imagina um adolescente que via os cartazes dos filmes na fachada do cinema e não tinha idade para assistir.

Lançado em 1972, foi o primeiro filme nacional que assisti. Despertou minha paixão pelo cinema brasileiro

Mas, no fim dos anos 70, a TV Record criou uma programação para divulgar o cinema nacional, a famosa “Sala Especial”, que foi a alegria de muitos adolescentes como eu. Só que os filmes exibidos eram rigorosamente proibidos para menores de 18 anos. A sessão era todas as sextas, às 23 horas. Se eu assistia? Não perdia uma sexta. Se meus pais deixavam assistir? Respondo que sextas-feiras era o único dia que eles faziam todos dormirem mais cedo. E como um bom filho, eu obedecia. Subia para o meu quarto (morava em sobrado) e esperava dar 11 da noite. Abria a porta sem fazer sequer um barulhinho, conferia se meus pais estavam dormindo, descia, ligava a TV, diminuía todo o som (tinha que ser assim, só ver as imagens sem som) e mesmo assim era só felicidade. Um olho na TV e outro na escada, para ver se alguém acordava. Meu pai às vezes levantava e descia para beber água. Eu desligava a televisão e me escondia atrás da poltrona da sala. Ele voltava a dormir, eu ligava a TV de novo. E assim foram anos e anos. O mais divertido era que todos os meus amigos da minha idade também faziam o mesmo. E no dia seguinte o nosso assunto era sobre o filme exibido.

Filme mais reprisado na Sala Especial

Por mais que essas produções fossem de baixa qualidade, foram importantes para a história da nossa cultura, tanto que hoje alguns são considerados cults, e para mim têm os seus encantos. Foi por meio da Sala Especial que conheci as obras de uma época difícil de se fazer cinema. Sonia Braga, Vera Fischer, Lucélia Santos, Nádia Lippi e tantas outras atrizes globais faziam parte dessa fase do nosso cinema. A censura da época liberava a nudez e o sexo porque não ameaçavam o governo e nem faziam as pessoas pensarem. Se essa era a forma de produzir cinema, então os cineastas driblavam a censura recheando seus filmes com atrizes peladas.

Vera Fischer e Lucélia Santos eram as minhas atrizes preferidas quando adolescente

Por isso, muitas pessoas ainda falam mal. Ouço até hoje quando defendo as nossas produções: “Ah, o cinema nacional é só putaria e palavrão”. Em parte, não tiro a razão deles, mas estão redondamente enganados com a nova fase. Uma pena darem tanto valor aos enlatados americanos e não prestigiarem o novo cinema brasileiro.

Um dos maiores clássicos do cinema nacional, dirigido por Bruno Barreto e lançado em 1976

De 2000 até hoje, que maravilha que são nossas produções. Que orgulho ver nosso cinema indicado ao Oscar e tantos outros festivais importantes do mundo. Quantos novos cineastas surgiram com outros focos e diretrizes. Cito alguns de gosto: Beto Brant, Selton Mello, José Eduardo Belmonte, Carolina Jabor, Daniel Rezende e por aí vai. Ficaria horas aqui recomendando vários filmes e diretores. Sem falar das produções independentes: como cresceram e como são até melhores que várias produtoras de renome.

Filme pernambucano produzido em 2012, nessa nova fase do cinema brasileiro

Não posso terminar essa matéria sem falar do cinema pernambucano, pelo qual tenho uma enorme admiração. Produções vigorosas e com cara de cinema de verdade. Claudio Assis, Hilton Lacerda, Kleber Mendonça Filho e tantos outros diretores que nos brindam com filmes de qualidade e sabem com maestria abordar assuntos polêmicos e pertinentes à nossa época. Como não se apaixonar por “Amarelo Manga”, “Febre do Rato”, “Tatuagem”, “O Som ao Redor”? Fica aqui minha dica.

Vá ao cinema. Prestigie o cinema nacional.

Espelho Cultural reflete Eleny Matera

Hoje quero falar de uma mulher guerreira, de uma mulher à frente do seu tempo, de uma mulher vibrante, de uma mulher que cantava com a alma. Quero falar de Eleny Matera, a mulher que emocionava todos com sua voz única. Quem nunca se emocionou ao ouvi-la cantando “Don’t cry for me Argentina” ou com sua interpretação de “Ne me quitte pas”? Ou com o clima passional do seu repertório castelhano, ou com o ritmo dançante das tarantelas italianas? Aliás, seu show italiano sempre foi atração constante e de grande sucesso nas festas de Quiririm. Que falta ela fez esse ano lá.

Voz forte e presença marcante por onde quer que cantasse, a paulistana e virginiana Eleny Matera iniciou sua carreira em 1971, cantando em restaurantes e bares das cidades do Vale e toda região. Essas apresentações lhe valeram um convite muito especial para sua carreira e no ano seguinte, 1972, se viu apresentando em Detroit (EUA), um sonho para quem estava começando uma história artística fantástica.

Foto: No show Guerreiras, em 1998 — Rose Santos,Eleny Matera, Bete Sá, Cidinha Castro, Régia, Duda Mattos e Farid (Crédito: Wladimir Pereira)

O samba sempre foi uma das suas paixões, por isso, em 1977, recebeu o carinhoso convite para integrar ao Grêmio Recreativo da Escola de Samba da Embaixada da Vila São José, em Taubaté, estreando como puxadora de samba enredo, experiência esta que lhe valeu o título de Melhor Puxador de Samba Enredo com “Dá no que deu e deu no que dá”, em 1983.

Em 1978, voltou a fazer shows fora do Brasil. Buenos Aires foi onde mais se apresentou e, ao regressar da Argentina, começou uma turnê pelo nordeste brasileiro.

Foto: Eleny no show Mulheres do Brasil, em 1996 (Crédito: Wladimir Pereira)

Entre 85 a 88 seu talento já podia ser visto nas telinhas da televisão. A TV Cultura exibia aos sábados o programa Festa Baile, comandado na época pelo cantor Agnaldo Rayol, e Eleny fez diversas apresentações como convidada especial do programa. E foi nesse programa que ela iniciou sua homenagem à saudosa Clara Nunes. Sua interpretação era tão intensa e verdadeira que, em 1987, o compositor Paulo César Pinheiro (viúvo de Clara Nunes) ofereceu uma música composta por ele, para que fizesse parte do repertório do primeiro disco de Eleny. E com esse aval do viúvo, Eleny estreou o show “Tributo a Clara Nunes” e começou uma turnê pelo Vale do Paraíba e Litoral Norte. Nessa sua investida acabou ganhando um apelido muito carinhoso: a “Clara Nunes de Taubaté”. Apelido este que Eleny tinha muito orgulho e assim ficou conhecida por mais de 15 anos.

Foto: Eleny no show Mulheres do Brasil, em 1996 (Crédito: Wladimir Pereira)

Já nos anos 90, ficou oito meses se apresentando na casa noturna Oba-Oba do Rio de Janeiro e uma temporada em diversas casas noturnas de São Paulo, acompanhada pelo conjunto Biriba Boys. Em 1994, em parceria do músico Ditinho Dias, cantou três meses em Hamburgo (Alemanha), a convite da famosa casa de shows Sambrasil.

Em 1996, participou do show “Mulheres do Brasil”, onde dividia o palco com mais três cantoras de renome. No ano seguinte, foi convidada pela diretora Duda Mattos a participar do show “Guerreiras”, em que teatro e música se fundiam com sua interpretação impecável. E Eleny não se limitou apenas às canções nacionais, seu repertório foi vasto, cantou em francês e também em inglês. Dividiu o palco com outras cinco grandes vozes da nossa cidade e região: Rose Santos, Cidinha Campos, Beth Sá, Régia e Farid. Era um sexteto maravilhoso.

Foto: Eleny Matera como Piaf, em 2004 (Crédito: Wladimir Pereira)

Depois de Clara Nunes, outra diva da nossa música foi homenageada por Eleny. Em 2001 ela produziu o show “Elis Sempre Elis”, e mais uma vez mostrou sua competência artística e musical. Muito popular na região, lotou o teatro municipal de Taubaté, com mais de 500 pessoas a aplaudindo.

Em dezembro de 2003, queria realizar outro sonho: fazer um show cantado somente em francês. E para minha grande surpresa, Eleny pede a mim para produzir, dirigir e realizar esse momento de sua carreira. Foi uma missão muito prazerosa e de muita honra. Árduas noites e noites de ensaios, muitos cafezinhos, altas risadas (era impossível trabalhar com ela sem rir toda hora, era uma grande piadista), até que em meados de 2004 o show estreia e Eleny estava irreconhecível em cena. Ela era a própria Edith Piaf. E mais uma vez a plateia se emocionou com o belo repertório francês escolhido a dedo por ela, no show intitulado “Edith Piaf e outros ídolos da canção francesa pela intérprete Eleny Matera”. O título era grande, mas era assim que ela queria que se chamasse e foi assim que se tornou um grande sucesso.

Foto: Eleny Matera emocionou o público cantando ‘Ne me quitte pas’ no show Piaf, em 2004 (Crédito: Luciano Dinamarco)

Dentre seus sonhos artísticos ainda tinham mais dois a realizar. E foi comigo que se reuniu e fizemos os projetos “Balaio de Mercedes Sosa” e “Minha Missão – Clara Nunes por Eleny Matera”, nesse último gostaria de relembrar seus momentos de “Clara Nunes de Taubaté”. Mas o destino é uma caixinha de surpresas e infelizmente esses projetos ficaram prontos apenas no papel.

Eleny Matera nos deixou na madrugada de quinta-feira, 3 de maio. São muitas lembranças lindas e momentos inesquecíveis ao seu lado. Sua partida deixa saudades imensas. Seu talento e sua voz estarão sempre presentes na memória musical de todos os amigos e artistas da cidade e região. Eleny sempre será lembrada pela sua alegria de viver, pelo seu carisma, pelo seu alto astral e pela risada gostosa e contagiante que tinha. Além de ser uma grande artista, era também uma grande mãe e uma grande avó. Eleny teve três filhos (Cláudia, Rosalia e André Luiz), oito netos e era apaixonada pelo maridão Rubens, que ela chamava carinhosamente de “paizinho”. Quero dedicar essa homenagem a esta família linda. Eleny agora é uma Estrela Maior e acredito que vai estar sempre iluminando nossos passos.

Foto: Risada gostosa e inesquecível de Eleny Matera, em 2008 (Crédito: Wladimir Pereira)

Ao fazer com ela o projeto “Minha Missão”, Eleny pediu para colocar uma frase de Clara Nunes no cabeçalho do projeto. E é com esta frase, conforme o seu pedido, que encerro:

“Eu tenho a grande missão de cantar, eu acho que todas as pessoas têm uma missão, ninguém está aqui nesse mundo passeando ou passando férias, está todo mundo aqui cumprindo um compromisso já assumido em outras vidas, eu entendo assim”.  (Clara Nunes)

Espelho Cultural reflete profissão: artista

Eita ferro. Era só o que faltava. 2018 parece que será mesmo um ano atemorizante. Em especial para nós da classe artística.

Mal o mês de abril chegou e veio a grande bomba: o governo quer extinguir o registro profissional de artista, o famoso DRT.

Esta denúncia foi feita no início do mês pela atriz Isabella Santoni (intérprete da Letícia Bezerra, personagem com leucemia na novela A Lei do Amor/Globo; e agora no ar como Charlotte em Orgulho & Paixão/Globo).

Isabella Santoni segura jornal de 1978, quando artista passou a ser considerado profissão

Para quem desconhece o que é DRT, a sigla significa “Documento de Registro Técnico”, mas também quer dizer “Delegacia Regional do Trabalho”. É um registro junto ao Ministério do Trabalho requerido para exercer “profissões regulamentadas por lei”. Profissões como: trabalhadores do setor de espetáculos e diversão. É um documento fundamental para trabalhos com carteira assinada e contratação de atores, diretores, modelos, produtores, técnicos (som e luz) e por aí vai. O DRT é um atestado de capacidade profissional concedido pelo Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões) por meio de aplicações de exames e validação dos profissionais.

Até 1978, ser “artista” não era “profissão”. Foram anos de muita luta e muito suor para que esses trabalhadores conseguissem ser reconhecidos como profissionais e pudessem gozar de todos os benefícios de qualquer outra profissão. Foram árduas décadas sofrendo discriminações e preconceitos. Muitas famílias não aceitavam que a filha se tornasse atriz, porque diziam que as atrizes eram todas prostitutas; e o filho então piorou, porque os atores eram vistos como drogados e homossexuais. Enfim, toda a classe artística era marginalizada. Ninguém prestava. Um bando de vagabundos. E assim foi por décadas e décadas. Felizmente, em 78, exatamente quarenta anos atrás, a profissão “artista” foi regulamentada. Hoje em dia, muitas famílias se orgulham dos filhos serem atores ou atrizes. Mas tudo que foi conquistado está ameaçado a findar.

A tragédia é a seguinte: o STF (Supremo Tribunal Federal) votará uma ação de natureza constitucional, no dia 26 de abril, para definir critérios de regulamentação de diversas profissões vinculadas à cultura. Isto porque a PGR (Procuradoria Geral da República) alega que a atividade de artistas, técnicos em espetáculos e músicos não se trata de profissão, mas sim de livre “manifestação artística”. Meu Deus! Viramos “manifestadores artísticos”. O que dizer sobre isso? E o que dizer de quem diz isso?

Penso que Nelson Rodrigues já previa quando disse: “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”.

A notícia da extinção (extermínio) do registro profissional DRT mobilizou vários artistas famosos como Murilo Benício, Malu Mader, Zezé Polessa, Leona Cavalli, Paulo Betti, Drica Moraes, entre outros tantos, iniciando assim a campanha “Não à ADPF 183 e 293”. ADPF é a sigla de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, uma medida cautelar do STF. Não vou explanar sobre essa medida aqui, porque é toda referente a leis legislativas e de inúmeras páginas. Mas resumindo, o governo quer extinguir o registro profissional de artista, o famoso DRT, como coloquei no início dessa matéria. Por isso que, desde o dia 4 de abril, muitos usuários do Facebook colocaram a frase “Profissão: Artista” na foto do seu perfil.

Está circulando nas redes sociais uma carta aberta pelo direito dos trabalhadores artistas, técnicos e músicos brasileiros, que precisa chegar a 100 mil assinaturas. Com isso, a classe artística tenta evitar essa catástrofe cultural. Eu já assinei. A carta, na íntegra, pode ser lida no link: https://secure.avaaz.org/po/petition/Artistas_Musicos_Tecnicos_e_espetaculos_diversao_circo_cultura_danca_Nao_a_ADPF_183_e_293/.

É triste ver que ainda precisamos brigar pelos nossos direitos de ser artista.

SOU ARTISTA, SOU TRABALHADOR!

TENHO DIREITO A UM REGISTRO PROFISSIONAL!

NÃO À ADPF 183 E 293!

Encerro aqui com outro pensamento de Nelson: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

Espelho Cultural reflete Troféu Imprensa e Oscar

Para quem é fascinado por televisão e cinema, ainda mais quando o assunto é premiação referente aos melhores da telinha e da telona, deve ter ficado enlouquecido, como fiquei, neste domingo, 4 de março de 2018, quando pela primeira vez o Troféu Imprensa foi exibido no mesmo dia do Oscar. As duas premiações estavam comemorando datas muito específicas: 60 anos de Troféu Imprensa e 90 anos de Oscar.

O Troféu Imprensa é a premiação mais antiga da nossa televisão, conhecido também como o Oscar da TV (A estatueta dourada é idêntica ao da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas Americana). Foi criado pelo jornalista Plácido Manaia Nunes em 1958 e era exibido na extinta Tupi. Em 1970, vendeu os direitos a Silvio Santos, que mantém a premiação até os dias de hoje. Já o Oscar é o mais antigo e o maior prêmio do cinema mundial, criado em 1927, por Louis B. Mayer, um dos fundadores da Metro-Goldwyn-Mayer.

Sílvio Santos apresenta a cerimônia do Troféu Imprensa, na qual dez jurados, entre jornalistas e colunistas de revistas de fofoca, elegem os melhores da TV aberta do ano anterior. Mas diferentemente do Oscar, os vencedores recebem o prêmio só na próxima edição do programa, isto é, se a emissora em que têm contrato permitir que venham buscar a estatueta. Sempre há atores, atrizes, jornalistas e artistas em geral que comparecem para receber o troféu e levam três ou quatro de uma vez, isso porque foram os mais votados em edições passadas e, como eu disse, só compareceram anos depois porque a liberação para buscarem o prêmio foi concedida pela emissora contratante.

Já no Oscar, todos os indicados ao prêmio comparecem à grande cerimônia, considerada noite de gala, em que as atrizes indicadas desfilam no tapete vermelho e exibem seus modelitos exclusivos para as lentes dos fotógrafos de grandes e famosas revistas e para as câmeras de quase todas as televisões do mundo. Praticamente uma disputa de vestidos e moda entre elas. A cerimônia dura horas e o vencedor de cada categoria sobe ao palco e recebe a estatueta dourada tão almejada por todos do mundo do cinema. É um evento muito luxuoso e bonito de se assistir.

Essa introdução é somente para nortear os leitores sobre as premiações, para que possam entender melhor o que me chamou atenção nesse ano.

Um fato muito curioso aconteceu no Troféu Imprensa. A premiação é para a televisão aberta, mas na categoria “Melhor Programa de TV”, os indicados foram “Caldeirão do Huck” (Globo), “Programa do Ratinho” (SBT) e “Lady Night” (Multishow). Como que o programa da Tatá Werneck, transmitido por canal a cabo, é um dos indicados se a premiação é só para TV aberta? E nenhum dos dez jurados comentou algo sobre isso. E “Lady Night” foi o grande vencedor da noite, tanto pelos jurados, como pelo voto popular realizado pela internet. Convenhamos que o programa da Tatá é muito divertido, inovador, o “timing” de humor dela é eletrizante e que, entre os indicados, até eu votaria nela etc etc etc. Mas continuo sem entender.

Na categoria “Melhor Cantora”, as indicações me incomodaram: “Ivete Sangalo”, “Joelma” e “Marília Mendonça”. Posso estar maluco, mas o que a Ivete e a Joelma gravaram de tão bom no ano passado? Procurei até na internet para ver se achava algo antes de escrever esse comentário, mas nada que estourou ou bombou nas rádios. E isso foi comentado também entre os jurados. Então penso que não estou tão maluco assim. Marília levou merecidamente o prêmio, ela estava e ainda continua na boca do povo. Já no voto popular, a Ivete levou o prêmio. Estranhei a Anitta não ter sido indicada, pois, mais que a Marília, ela lacrou em tudo que gravou, tanto sozinha como com as parcerias que fez em 2017. Vai entender, né?

Outro fato foi “Melhor Programa Infantil”. Há dois anos consecutivos (2016 e 2017) que são os mesmos indicados: “Bom Dia & Cia”, “Mundo Disney” e “Parque Patati Patatá”, todos do SBT. O primeiro sempre esteve entre os indicados desde 2001 e levou a estatueta quase todos os anos. Esse ano de novo. Se o programa é bom ou não, não vem ao caso, porque o que me chamou atenção foi que realmente não há como ter outras indicações. As emissoras abertas deixaram de investir em programas para crianças. Globo, Record e Bandeirantes não têm mais essa grade. Diferentemente dos anos 80 e 90, em que as manhãs e as tardes das telinhas eram recheadas de programas infantis. E de bons programas. Por que será que não há mais esse investimento? E independentemente da qualidade dos programas acima citados, tenho que parabenizar o SBT, que ainda investe no universo infantil e com isso consegue que essa faixa de idade seja um público cativo. Sem contar com as novelinhas adaptadas pela dona Íris Abravanel, que também atinge essa faixa etária. Falo isso porque dou aula para crianças e a maioria assiste “Carinha de Anjo”, como assistiam também “Carrossel” e “Chiquititas”. Acredito que ano que vem os indicados nessa categoria continuem os mesmos.

Uma categoria que senti muita falta foi “Revelação do Ano”. E olha que em 2017 tivemos grandes revelações artísticas, tanto na música quanto nas novelas. Pabllo Vittar e Carol Duarte (a Ivana/Ivan da novela A Força do Querer) poderiam até empatar. Eu, de verdade, não saberia escolher entre os dois. Fiquei assistindo esperando para ver os indicados, mas essa categoria foi extinta esse ano. Uma pena. Só para informação, Marília Mendonça foi a revelação da edição passada.

E para finalizar sobre o Troféu Imprensa, há duas categorias que não tem como o próprio Silvio Santos, o dono e apresentador da premiação, não ganhar a parada: “Melhor Animador ou Apresentador de Auditório de TV” e “Melhor Programa de Auditório”. Todos os anos, creio que desde os anos 70, Silvio Santos está entre os indicados e leva o prêmio. E para que os jurados não se sintam constrangidos, Silvio não faz mais votação oral. Uma urna é passada na bancada e cada jurado escreve o seu voto e deposita na caixinha, sem se identificar. Depois o próprio Silvio abre a urna e lê cada voto. Mas não tem como, ele é hors-concours, um mestre da comunicação. O sensato seria que seu programa não fosse indicado, mas também não sei se seria justo, pois para chegar às três indicações, uma grande pesquisa é realizada nas ruas e o povo ama o cara. Se ele ganha todos os anos, é porque não existe ninguém igual ou tão genial como ele. Fato.

Sobre o tão cobiçado Oscar, em sua 90ª edição, apresentado pelo comediante Jimmy Kimmel (segundo ano que ele é o mestre de cerimônia). Aliás, por que a premiação tem que ser comandada sempre por um astro da comédia, se é um evento tão sério e o mais importante do mundo, em relação a cinema? Já repararam que filmes de comédia nunca são indicados? Seria uma forma de compensar a falta de indicações desse gênero? Comento isso porque, como é transmitido ao vivo, as piadas não são traduzidas pelos tradutores, ou quando são, ficam extremamente sem graça. Além disso, os tradutores incomodam um pouco e sempre me dá a impressão de dublagem de novela mexicana, porque fica aquela mistura de vozes, a do artista no fundo e a da tradução que vem depois cobrindo o que está sendo falado no momento e assim vai até o final do evento. Uma legenda seria tão mais eficiente. Sabe aquelas legendas eletrônicas? Fora os comentaristas que também fazem seus apartes durante a fala de um astro no palco. E é muita falação e explicação que dá vontade de apertar o “mute” do controle remoto. Enfim, melhor não opinar sobre isso.

Mas com tudo isso o Oscar sempre inova e sempre há surpresas nas suas edições. A atriz Frances McDormand, premiada como Melhor Atriz por “Três anúncios para um crime”, convidou todas as mulheres indicadas a se levantarem e fez um discurso feminista sobre inclusão e finalizou com duas palavras: “Inclusion rider”. Pesquisei para saber o significado. É uma cláusula que os atores podem pôr em seus contratos que exige que a equipe e o elenco dos filmes tenha igualdade racial e de gênero.

Pela primeira vez um filme protagonizado por uma transexual levou a estatueta. “Uma mulher fantástica”, produção chilena, estrelado por Daniela Vega, ganhou como Melhor Filme Estrangeiro. Estou curioso para ver esse filme.

Fiquei contente ao ver James Ivory levar o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado pelo filme “Me chame pelo seu nome”. Ivory também se tornou o premiado mais velho da história do Oscar, recebendo o prêmio com 89 anos. O filme é lindo, mas não era o meu favorito da noite.

E Jordan Peele levou o prêmio de Melhor Roteiro Original pelo filme “Corra!” e entrou também na história como o primeiro negro a ganhar nessa categoria. O filme é perturbador, desses que você sai sem fôlego do cinema (Um aparte: o filme “Mother”, de Darren Aronofsky, faz isso com a gente). “Corra!” era o meu favorito antes de assistir “A forma da água”.

Há muito tempo que um filme não mexia tanto comigo. “A forma da água”, de Guillermo del Toro, é uma poesia… é um filme de arte… é sexy… é de dar prazer em assistir mais de uma vez. Teve 13 indicações e levou quatro prêmios: “Melhor Filme”, “Melhor Direção”, “Melhor Design de Produção” e “Melhor Trilha Sonora”. Aliás, a trilha é surpreendente, “Chica Chica Boom Chic”, com Carmen Miranda, é um hino quando se ouve. Fiquei até arrepiado. Enfim, era o meu favorito e me senti premiado também quando levou os dois maiores prêmios.

Todos os anos discuto uma questão que até agora ninguém conseguiu me explicar ou me convencer ao contrário. Penso eu: se o filme ganha como “Melhor Filme”, automaticamente ele foi o melhor porque teve o olhar e a mão de um grande diretor. Foi o que aconteceu no Oscar desse ano, melhor filme e melhor direção para a mesma produção. Mas na maioria das edições a premiação de melhor direção não era a mesma do melhor filme. Exemplificando: se eu recebo um prêmio como melhor direção, subentende-se que meu filme deveria ser o melhor e vice versa. Meu raciocínio tem sentido? Fica aí essa questão e quem souber me explicar ou me convencer, vou adorar.

Encerro com o divertido comentário de Jimmy Kimmel, referindo-se A forma da água: “No ano em que os homens se equivocaram tanto, as mulheres começaram a sair com peixes”.

Espelho reflete sobre Mostra de Teatro de Taubaté

É com grande honra que escrevo para o Blog Espelho Cultural, onde poderei comentar e dividir experiências artísticas, como também colocar em discussão assuntos pertinentes à nossa cultura.

O primeiro assunto será sobre uma das minhas grandes paixões: o Teatro. Mas não “o fazer teatro” e sim falar da “Mostra de Teatro de Taubaté”. “Um sonho conquistado”, com muita luta, suor e amor pelo que faz, pelos grupos teatrais da cidade.

2002 – 1º cartaz da mostra feito em sulfite A3

Participei da primeira reunião de criação da mostra em 2002, ano que ela nasceu e tive a oportunidade de organizar oito edições (de 2007 a 2014). Aliás, em 2007 a mostra quase não aconteceu porque o Teatro Metrópole, local onde sempre era realizada, iria fechar para reforma. Mas conseguimos que acontecesse e depois fechasse o teatro. No ano seguinte, sem o Metrópole, outra luta: encontrar espaço ideal para o evento. E o Sesc Taubaté cedeu seu palco do circo. Tivemos receio no inicio, devido ao Sesc ser longe do centro, mas foi surpreendentemente lindo, casa cheia todas as noites, inclusive nas segundas. Em 2009, ainda com o Metrópole desativado, a mostra aconteceu no então recém-inaugurado Centro Cultural. Foi armada uma tenda enorme na quadra e mais um ano de sucesso. A partir de 2010, voltou a acontecer no Metrópole, se estendeu a outros espaços e se tornou um dos eventos mais comentados e aguardados da cidade.

2008 – flyer impresso da mostra que aconteceu no Sesc Taubaté

Enfim, vale lembrar que nesses três árduos anos em busca de espaços para que a mostra não morresse, tivemos apoio “apenas” da gerência de cultura do então Departamento de Meio Ambiente, Turismo e Cultura da Prefeitura, pois para a diretoria cultural, se não tinha local para fazer, então não fizesse. Era essa a solução que sempre escutávamos.

2009 – peça ‘Deu a louca nas bruxas’, do Grupo Teatral Luva de Pelica, no Centro Cultural (Foto: Wladimir Pereira)

A mostra, desde a sua primeira edição, era tão grandiosa que, no período em que estive à frente da organização, pude fazer uma estatística de participação por meio dos borderôs de bilheteria e das fichas de inscrições das 12 primeiras edições, como segue abaixo:

– Mais de 150 artistas, entre atores, diretores, dramaturgos e técnicos, em cada edição;

– Mais de 15 grupos inscritos por ano;

– Mais de 200 peças apresentadas (de 2002 a 2014);

– E uma média de público de 10 mil pessoas anualmente.

2012 – flyer da mostra que ocorreu em vários pontos de Taubaté

Com esses números, a “Mostra de Teatro de Taubaté” comprovava a sua grande importância à cultura municipal e, para quem não sabe, era toda realizada por grupos de Taubaté. Com ela, a classe teatral da cidade tinha a oportunidade de apresentar seus trabalhos, independentemente do gênero, categoria e formato, ao mesmo tempo em que fomentava o gosto pelo Teatro. E nesses anos citados, a cada edição, foi conquistando mais público. Como já disse, era um grande acontecimento na cidade.

2013 – peça ‘Mortuária’, do Grupo de Teatro BlasFêmeas, no porão do Teatro Metrópole (Foto: Aldy Coelho)

Repare que comento sobre a mostra usando “verbos no passado”. E o motivo é que aconteceu algo inexplicável nas três últimas edições, entre 2015 e 2017:

-2015: 13 grupos de Taubaté inscritos e 04 peças convidadas de outra cidade (ainda manteve um número muito bom de peças, mas teve uma grande queda de público);

-2016: Apenas 06 peças na programação (fiquei muito assustado);

-2017: 04 peças inscritas e 03 grupos convidados (fiquei apavorado).

Estive presente na abertura oficial do ano passado e qual foi a minha tristeza em ver um público que não chegava a 100 pessoas, num teatro que tem 565 lugares (e que sempre lotava) e com ingresso gratuito. O que houve com os grupos teatrais de Taubaté? Onde estão nossos atores, atrizes, diretores e técnicos? Cadê aquele público conquistado com tanto carinho e suor?

2014 – peça ‘Essa fada… Essa fada’ (Foto: Angelo Rubim)

A classe teatral de Taubaté tem culpa nisso tudo? Tem também e me incluo nisso, porque faço parte dessa classe. Mas nossos gestores culturais municipais são os grandes responsáveis. Eu que o diga. Se soubesse como é cansativo e difícil você “tentar” fazer com que nossos dirigentes culturais (que na maioria nunca são da área artística, e por isso não pensam como artista) entendam que o teatro transforma as pessoas, que o teatro ensina, emociona, provoca catarse, enobrece a alma de quem vê e de quem faz, e que a mostra tem sua importância cultural para Taubaté e que ninguém percebeu ainda que ela está findando. Mas eles não entendem ou não querem entender. Uma vez, na minha angústia de nenhum gestor cultural entender isso, procurei o prefeito para falar da Mostra de Teatro que visivelmente está morrendo. Levei pastas com fotos de todas as edições, materiais gráficos impressos, estatísticas de público e tudo mais que eu tinha para ilustrar a conversa e sua resposta foi muito clara e objetiva: “Na minha gestão, tenho duas prioridades: se tem comida para o povo comer e se tem casa para eles morarem. Teatro é perfumaria. Ninguém precisa”.

Nelson Rodrigues dizia: “A burrice é diferente da ignorância. A ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades. A burrice é uma força da natureza.”

Olha o tamanho do absurdo que eu ouvi. Eu olhei para a carinha dele, fechei minhas pastas, agradeci com a cabeça por ter me recebido (porque sou educado) e saí no silêncio com um nó na garganta que segurei para não desatar. O que esperar de um gestor cultural com um prefeito que dá essa resposta? Nada mesmo. Então para que serve uma Secretaria de Cultura? Ou melhor, por que ter uma Secretaria de Cultura, se ninguém precisa de Arte?

2017 – não houve material impresso para divulgação da mostra

Em nenhum momento aqui estou colocando a Arte ou o Teatro como prioridade de uma gestão. Por favor. Falo no sentido que se existe uma Secretaria de Cultura, que ela se preocupe e priorize alguns eventos artísticos. Se um evento, como a “Mostra de Teatro”, que vai fazer 16 anos agora em 2018, está a cada ano diminuindo participantes e diminuindo público, que nosso Secretário ou diretora ou gerente de Cultura tenha um olhar mais carinhoso à classe teatral e faça uma reunião geral, conheça os atores da sua cidade, pergunte o que está acontecendo, “tenta” pelo menos fazer alguma coisa para que esse ano a mostra não fique só na memória histórica da cidade.

Taubaté deve ser um dos poucos municípios, ou senão o “único”, que tem uma Mostra de Teatro realizada apenas com seus artistas. É de conhecimento geral que nem todos sobrevivem da sua Arte. Essa é grande realidade. A maioria dos atores, diretores, dramaturgos e técnicos exerce outras profissões, mas faz teatro por paixão.

E é essa paixão que me motivou a esse desabafo. Foi aprovado em 06 de dezembro de 2017 o orçamento municipal deste ano. Para a pasta de Turismo e Cultura foi destinado 11 milhões 552 mil reais. Desse valor mais de 5 milhões serão para custear a realização de 320 eventos do calendário oficial do município. Foram propostas pelos vereadores 57 emendas para o setor da cultura sugerindo suplementação de verba. 40 dessas emendas destinam verbas para eventos e festas. E dentre esses eventos e festas, mais uma vez a Mostra de Teatro de Taubaté não está inclusa.

Encerro esse assunto com outra frase do meu ídolo maior Nelson Rodrigues: “Via de regra, cada um de nós morre uma única e escassa vez. Só o ator é reincidente. O ator ou a atriz pode morrer todas as noites e duas vezes aos sábados e domingos”.

Evoé!

Boa semana a todos!

Toda nudez será castigada

Sou fã incondicional deste homem que não tinha receio de mostrar em sua dramaturgia toda a hipocrisia das famílias tradicionais. Estou falando de Nelson Rodrigues, o maldito, o obsceno, o anjo pornográfico do nosso teatro. “Toda nudez será castigada”, escrita em 1965, foi considerada a peça da discórdia em muitas matérias de jornais e revistas da época. Apesar do título, não há nenhuma cena de nudez descrita na obra e pasme, nenhum palavrão também. E já dizia este mestre: “Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo podia-se andar nu”.

E pegando esse gancho que quero citar neste texto alguns fatos ocorridos em nosso país com relação à Arte em geral.

10 de setembro de 2017 – A exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira”, com obras de 85 artistas, entre eles Cândido Portinari e Lygia Clark, foi fechada um mês antes do previsto, por causa de protestos de grupos religiosos e do MBL (Movimento Brasil Livre) que consideraram o conteúdo da exposição apologia à pedofilia e à zoofilia. Só lembrando que as obras estavam expostas desde o início de agosto no Santander Cultural de Porto Alegre (RS). Houve até campanhas virtuais desses grupos para que correntistas do banco cancelassem suas contas como forma de boicote.

26 de setembro de 2017 – O premiado coreógrafo e performer Wagner Schwartz participou da abertura do 35º Panorama de Arte Brasileira do MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo e um vídeo de sua performance foi postado nas redes sociais. Neste vídeo uma menina acompanhada pela mãe, uma coreógrafa e também performer, tocava no pé do ator, deitado nu no chão. A performance intitulada “La Bête”, inspirada no trabalho “Bichos” de Lygia Clark, uma série de esculturas com dobradiças que permite o espectador se torne figura atuante na obra, era o mesmo que Schwartz, nu, se colocava a essa vulnerabilidade. As pessoas presentes podiam toca-lo e mudar sua posição. A apresentação foi considerada imoral, pornográfica, repugnante e também fazia apologia à pedofilia. Lembrando que havia informação sobre a nudez na entrada da sala.

09 de outubro de 2017 – A exposição do Palácio das Artes de Belo Horizonte (MG) intitulada “Faça você mesmo sua Capela Sistina”, do artista plástico Pedro Moraleira, também recebeu protesto de grupos religiosos liderados por um vereador da cidade, que diziam que a exposição fazia apologia à pedofilia. O próprio prefeito foi visitar a exposição e não encontrou nada de indecente ou imoral nas obras expostas. Lembrando que a exposição era indicada para maiores de 18 anos.

16 de outubro de 2017 – A artista Pablo Vittar, uma das atrações musicais confirmadas para o 28º Munchen Fest de Ponta Grossa (PR), que acontecerá de 05 a 10 de dezembro deste ano, poderá não se apresentar no festival por causa de um protesto de um vereador e pastor evangélico do município, que segundo ele, a cidade não pode receber a artista por ser uma cidade de “família” e “conservadora” e completou: “Se (Pablo) inventar de ir para a rua e escolas, eu vou lá e vou prender, nem que depois seja preso por abuso de autoridade”. Tomando conhecimento desse fato, um grupo de jovens foi à Câmara Municipal e também fez seu protesto: “Lugar de pastor é na igreja”.

Volto ao Nelson que dizia: “O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda”.

Pensava eu que, quando entrarmos no século 21, censura, preconceito, racismo e qualquer tipo de intolerância seria algo do século passado. Que tolo, que inocente, que ridículo, que fora da casinha eu era. Com todos esses acontecimentos em menos de dois meses, fora outros não listados aqui, tenho a impressão que não estamos em 2017 e sim em plena ditadura dos anos 60, onde artistas eram perseguidos e marginalizados, onde a Arte era considerada criminosa. E pior que isso, que medo eu tenho em pensar que estamos voltando à Idade Média, à época das inquisições. Será que “Toda Arte será castigada”?

E por que esse medo todo? Oras, todas as polêmicas artísticas estavam em locais fechados, em museus, em salas… Ninguém é obrigado a ir visitar. Ninguém precisa gostar ou não do que vê ou viu… Se eu vejo na entrada uma informação que há nudez e se isso me incomoda, eu tenho a liberdade de não querer entrar… Se sei que uma exposição é indicada para maiores de 18 anos, vem à minha cabeça que poderei ver algo mais forte ou não, depende do ponto de vista de cada um… Na última peça que escrevi, intitulada “Luzes e Sombras” tem uma frase assim: “A indecência está na cabeça de todos”. E é exatamente como penso. Por que o fato de uma menina que estava acompanhada pela mãe e mais outras pessoas presentes, apenas tocar no pé de um artista nu, virou ato pedófilo e uma histeria nacional, se existem praias de nudismo e clubes naturistas onde crianças e adultos convivem muito bem nus? Quem filmou e colocou nas redes sociais que deveria ser punido. Esse sim expôs a criança, esse sim quis causar a polêmica, esse sim seria o pedófilo.

Não gostaria aqui de entrar em questões religiosas ou políticas. Mas é claro e nítido que estamos em épocas eleitorais, que estamos vivendo os piores tempos de governo e que é de interesse de muitos que a gente desvie nossos olhares e não veja o que realmente é imoral, repugnante e que nos dá muita vergonha. É muito engraçado, para não dizer “triste”, ver pastores e políticos pregando a moral e os bons costumes com históricos duvidosos e porque não dizer criminosos.

Encerro este artigo com outra frase de Nelson: “Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos”.